O que é a vida
O que é a vida?
Um dia, eu caí e apaguei no meio da sala. Foi algo relâmpago. Eu estava só, como todos os dias de um tempo para cá. Ao dar por mim, percebi que eu estava sem pernas. Não mais me sentia da Pelve (Bacia) para baixo. Meus pés não se movia, eu havia perdido a comunicação com os meus membros inferiores e na hora, assustado, me disse a mim, mesmo: "Estou tetraplégico!". Eu estava só em casa e sofrendo muito com uma depressão que havia feito meus familiares se acovardar em tentarem me ajudar a sair deste estado de espirito indescritível em que me encontrava.
O que sentia desde aos amanheceres dos dias, que passavam lentos, era uma profunda sensação de estar num vazio repleto de inimigos que dos quais eu não tinha como me livrar. Eu pensava em esbofeteá-los e até socava o vento sem atingir nada ou ninguém, e isso fazia me sentir, mais ainda, desvalido impotente e mais só.
Eu não queria admitir nada do que estava acontecendo comigo e muito menos confidenciar aos meus familiares, achava impossível que eles não tivessem sensibilidade suficientes para não ver o meu sofrimento, que para mim, estava claro, doloroso e profundo. Imaginava que eles não podiam deixar de ver e sentir tudo que eu sentia. Mas, eu era absolutamente ignorado.
Rapidamente fui percebendo os distanciamentos de meus familiares. E por isso, menos ainda, eu entendia a minha solidão e quais razões de tudo isso estar me levando a morte. Perpassava por minha cabeça que a qualquer momento eu estaria morto, foi estarrecedor. Afinal de contas, eu havia dedicado quarenta anos a essa família que agora me abandonava. Todas as coisas acontecidas, de certo modo insignificantes, ou que eu tinha feito, mesmo involuntariamente; era para mim, certeza de que seria fator de vinganças deles, e talvez por isso, seria os motivos de não se aperceberem dos meus sofrimentos, eu pensava que todos os seus descasos, eram propositais.
Eu não entendia suas razões em não me suportar, já que eu jamais me furtei às sua causas, desejos e faltas. Coisas terríveis me perpassava na cabeça. Talvez minha sorte, era que eu frequentava um templo espiritualista e sempre que me vinha esses surtos de "loucura" eu corria para lá. Muitas vezes eu era literalmente levado, de forma inconsciente, mesmo. Pois eu não estava em estado de um ser que percebia meus passos, meus pensares, minhas ações. Era como se eu tivesse sido abduzido, e lá no templo, fosse soltado já dentro do local, tido, para a comunidade, como sagrado.
Eu pensava em me matar como forma de vingança a todos os meus familiares. Eu cheguei a pensar em matá-los, também, pela mesma razão. Minhas dores, a solidão, a tristeza, o desengano, a injustiça faiscavam em meus olhos como olhar num céu estrelado, eu queria morrer junto com eles, para não ficar nada de mim sobre a terra, devido a minha imprestabilidade.
Quarenta anos passavam e repassavam em minha cabeça num amontoado de imagens com quase nada de alegrias ou contentamentos. "Quarenta anos de minha vida por nada, por nada!" eu repetia. Estes pensamentos invadiam minha mente, involuntariamente, de forma massacrante. Eu sentia ter perdido o domínio e a cada vez que isso me atormentava martelando os sentidos, tudo que eu via de possibilidade era morrer.
As noites eram longas e os dias infindos. Meus filhos crescidos, educados, estudados, casados, trabalhando, criando meus netos, toda a minha riqueza imensurável não valia mais nada. Eu me sentia ridículo, por ter estado apaixonado por cada um deles como se eles fossem meus. Eles nem se quer me viam dentro daquela vulnerabilidade tão sofrível. Eu tinha me tornado imprestável e descartável, era assim que me sentia. A dor queria me arrancar de dentro de mim, destroçando minhas vísceras.
Mas, para não delongar com essa questão de dores infindas destes momentos de minha vida. Preciso dizer que depois do medo de ter me tornado tetraplégico, e, passados algumas horas, consegui finalmente me recompor com algumas dificuldades e voltar a andar, meio titubeante pela casa e, ter domínio de meu corpo. Sim, foi um alívio imenso perceber que eu estava quase de pé novamente. É claro que se eu fosse detalhar todos os sentimentos que me assolavam durante a minha inutilidade absoluta, daria um longo livro.
E, assim, num desses momentos terrível de dias nebulosos e sem esperanças, eu resolvi, por fim, mergulhar profundamente neste escuro e procurar a luz, passei a acreditar que haveria de ter, duas pedras em algum lugar para eu esfregar e esfregar, até fazer alguma chama de luz surgir novamente. Resiliência era uma palavra desconhecida em minha cabeça, porém eu lutava para praticá-la por minha sobrevivência, durante toda a minha vida.
Era, de verdade, muito profundo o poço que me sentia estar. E mergulhei para valer sem saber de fato de que se estaria escorregando para baixo ou se caminhava adiante ao encontro das pedras de fogo.
Eu queria tanto saber da verdade que pudesse me elucidar das razões de tantas dores por todo o decorrer de minha vida e, agora, tão acentuada em meu corpo e em minha alma mais ainda. Por mais que eu procurasse formular por minhas próprias teorias, eu só via abismos e dores.
Eu estaria assim, nessas condições alucinógenas, por tantos desgastes das lutas, das esperas, das decepções, das misérias, da fome da minha mãe infância e agora de novo, do abandono?...Percebi que eu tinha saído de uma condição de liberdade estrita à restrita, e a não ser nada mais aprofundada do que antes. A não ter nada, a não servir para nada e com uma cabeça pensante fervilhando noite e dia na busca de compreensão elucidativa da razão do porquê estava vivo, vivendo, sonhando, lutando pela sobrevivência e tendo menos que o suficiente para a subsistência. Nada vinha como compreensão elucidativa que me desse alento. Nada!
Eu passava dias sem ter o que comer de forma normal, apenas uma ou outra coisa para cozinhar e nenhuma vontade de fazer. Eu estava só, o que não era, necessariamente, problema gravíssimo, se fosse apenas o sofrimento da solidão. Tudo me parecia ter se tornado fruto apropriado a vingança, de todos eles contra mim, Isso me fazia ressentido e fracassado, o chinelo que não pude comprar para minha filha, o anel de formatura da outra, a roupa nova do natal para o filho, o brinde da champanhe. A palavra "amo", jamais proferida com algum olhar nos meus olhos por ninguém. Todos os pormenores de minha insignificância afloravam como ervas daninhas, dentro de mim,
Embora eu jamais tivera uma família, que eu pudesse chamá-la de minha, no passado, e esta que eu tinha constituído, esta do "presente", assim como a outra, já não existia mais. Eu não conseguia entender seus parâmetros de verdade, eu não sabia definir e entender se essa ruptura tinha sido consequências de minhas maneiras estranhas, na atualidade (para eles) dentro desse tempo, ou se fora consequência de uma junção de coisas juntadas no decorrer desta vida minha ou com eles.
A minha prestatividade às sua vidas, havia sido constantes e tão sofrível, para serem vencidas por mim, porém, "e me parecia impossível", que tinha criado tantos monstros, eu me fartava de dores, o que parecia diante de tanta incompreensões de todos, eram que eles despejavam estanho derretido sobre o meu cadáver, ainda com algum resto de vida, pensavam que eles estivam amando me ver sofrer e impotente. Creio que o fato é que ninguém sente a dor de ninguém, nem mesmo os filhos, esposas, ou outros parentes.
Depois de um final de semana tão vazio quanto o silêncio, que me invadia a alma, aconteceu-me um estranho despertar.
Fiquei horas meditando repleto de perguntas que sempre me levava para um lugar retórico. O que era ou quem me conduzia, não soube dizer, categoricamente, para afirmar. Entretanto, depois de me recostar em meu velho sofá, de olhos fechados, divagando, com a mente silenciada e sem pensamentos aleatórios me perturbando, aconteceu a seguinte formulação involuntária e concreta e clara dentro de meu ser.
Não existe nada no mundo que tenha mais importância do que a vida, porque a vida é Deus. E sendo Deus a vida, está provada a existência de Deus. O que não se prova é o Deus que os ateus acreditam não existir e que de fato, não existe; que é o Deus das religiões. Portanto, o Deus das religiões não existe de fato, este é uma figura de retórica manipulada para o poder, a ganância e a notoriedade de seus líderes. A fé é estimulada psicologicamente para os incautos se alienarem e se tornarem zumbis teleguiados. Estes, são, na verdade, as vítimas de suas escravidões. Ao entendermos que Deus é a vida que temos dentro de nós, ganhamos a liberdade irrestrita, dentro do que for constituído pelas legalidades do país. Que efetivamente temos de respeitar ao nos conduzir em sociedade.
Depois, caminhei até o banheiro e entrei sem me despir das velhas vestes surradas e sujas, embaixo do chuveiro. apanhei um pedaço de são em barra que estava abandonado junto ao vidro do vitrô e comecei a ensaboar minhas vestes ainda no corpo. Fiquei ali um longo tempo sem me dar conta do tempo. Minha mente havia apagado tudo. Não havia mais aquele mundo de duas horas atrás. Era como se o dia tivesse anoitecido e numa mesma fração de segundos o sol nascera. E foi assim, que descobri, finalmente quem era Deus. Sim, Deus é a vida que temos dentro de nós!
Percebi, indubitavelmente, que o livre arbítrio era a minha ferramenta principal, para tomar minha existência às mão e nunca mais permitir entrar em mim, nada que me pudesse fazer infeliz!
ZéReys Santos.
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